sábado, 7 de dezembro de 2013

Dom Casmurro gay?

Que haja dúvida sobre a fidelidade de Capitu isso vem desde o momento que a história foi lançada ainda nos folhetins, mas uma outra dúvida fica no ar; com o passar do tempo, as pessoas vão fazendo releituras das obras de todos os autores e trazendo à tona racismo, homossexualidade, "filosofia" onde não tinha, maluquice onde era filosofia; porém o que quero mostrar é uma "alfinetada" de Millôr Fernades em

26 de janeiro de 2005 sob título "O outro lado de Dom Casmurro ". Tentei retirar algo que o Millôr selecionou, mas não consigo; então vai um trecho da matéria dele que pode ser encontrada na íntegra em O outro lado de Dom Casmurro


"Não fiz interpretações. Apenas selecionei frases – momentos – do próprio Dom Casmurro/Machado, da edição da Editora Nova Aguilar. Leiam, e concordem ou não.
Pág. 868 "Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo."
Mesma página "Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro... Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou..."
Pág. 876 "Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres."
Pág. 883 "Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa... mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas.
Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado."
Mesma página "Fui levá-lo à porta... Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou."
Mesma página "Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
– É o Escobar, disse eu."
Pág. 887 "– Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.
– Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça... Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso."
Pág. 899 "Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não me visse desde longos meses.
– Você janta comigo, Escobar?
– Vim para isto mesmo."
Pág. 900 "Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo."
Pág. 901 "Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou..."
Pág. 902 "Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos."
Pág. 913 "Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas."
Pág. 914 "A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força."
Págs. 925/26 (Depois da morte de Escobar) "Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória, escrita embaixo, não nas costas do cartão: 'Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70'."
P.S.: Mas, se vocês ainda têm dúvida, leiam a página 845 do fúlgido romance. Bentinho, ele próprio, fica pasmo, e realizado, quando consegue dar um beijo (quer dizer, apenas uma bicota) em Capitu. É ele próprio quem fala, entusiasmado com seu feito de bravura:
"De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
– Sou Homem!

Será que ele era, será que não era? Somente Machado poderia responder, ou não... 

Obrigado e boa leitura.

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