quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O "X" como morfema de gênero. Está certo ou errado?

Dentre os vários morfemas que compõem os substantivos e adjetivos, o morfema de gênero é aquele que mais vem causando polêmicas nos últimos anos. Há duas observações possíveis para esse assunto: uma linguística e outra sociocultural.

Do ponto de vista gramatical tradicional, há apenas dois gêneros em Língua Portuguesa: Feminino e Masculino. Em outras línguas há também o Neutro, como era no Latim, mas boa parte dos nomes neutros foi assimilada pela forma masculina (templum (neutro de 2ª declinação) → templo (masculino)).
A marcação do gênero é feita por meio do morfema -a- para  o feminino e pelo -o- ou Ø (ausência de marcação) para o masculino, geralmente no final da palavra. Após o morfema de gênero, aplicam-se os demais morfemas flexionais ou derivacionais (inho/a, s, ão/ona, etc.).
O Determinante (artigos, pronomes e numerais) deve, necessariamente, concordar em gênero e número com o determinado, ou seja, se o Substantivo ou Adjetivo for masculino, o determinante deve estar no masculino, e indicando se há um ou mais exemplares daquele ser participando da ação.
Há Nomes que não têm a marcação de gênero, ponte, fonte, hidrante, jovem, imigrante, personagem, são apenas alguns dos vários exemplos de palavras que não recebem o morfema de gênero, mas têm sua concepção apresentada pelo determinante e por seus adjuntos.

Ex.:
A ponte
Uma fonte
O hidrante
Aquele jovem / Esta jovem
Esse imigrante / Aquela imigrante
O personagem / A personagem
Ponte alta
Fonte bonita
Hidrante seco
Jovem estudioso / Jovem aplicada
Imigrante cansado / Imigrante grávida
O personagem másculo / A personagem rica

O plural é obtido com a adição do morfema -s ao final da palavra. Ao se referir a um conjunto formado por dois ou mais seres do gênero masculino, ou a um grupo composto por um ou mais seres masculinos mais, um ou mais, seres femininos, é utilizada a forma do masculino plural.
A palavra “brasileiros” pode se referir a apenas homens ou aos homens e às mulheres naturais do Brasil. Quando uma autoridade inicia seu discurso com “brasileiros e brasileiras”, estamos diante de uma evidente separação entre homens e mulheres, uma vez que brasileiros equivale a “brasileiros + brasileiras”.
É óbvio que há situações nas quais não se tem dúvida do sexo/gênero do público alvo. O assunto é “câncer de próstata”, por exemplo, não é possível pensar que há mulheres sendo examinadas ao ler a frase: “Funcionários da Emlur fazem exame de próstata no Novembro Azul”1
Outro modo tradicional de se marcar o masculino e o feminino nas palavras é a adição do morfema de gênero, com suas devidas flexões entre parênteses no final da palavra.

Ex.:
“Amigo(a)” / “amiga(o)”
“Funcionários(as) / “funcionárias(os)”
“Irmão(ã)” / “irmã(ão)”
“Os(as) dentistas” / “As(os) dentistas”
“Professor(a) / Professores(as)” / “Professoras(es)”
        
Nos exemplos acima, o que está entre parênteses substitui o morfema inteiro, não só a vogal característica. Geralmente a forma masculina vem primeiro, e não há espaço entre a palavra e o parêntese.
 “Ok, mas o que isso tem a ver com o título?” Se você fez essa pergunta, eu respondo agora.
 Há alguns anos, por causa das lutas pelas causas de igualdade de gênero, sejam elas promovidas pelo movimento feminista, ou pelos grupos LGBT, a letra X vem sendo empregada no lugar do morfema de gênero. Seguindo essa linha, palavras como moço(a), arquiteto(a), do(a), estagiário(a), etc. seriam reescritos como moçx, arquitetx, dx, estagiárix, etc. Não vejo essa letra sendo empregada em palavras como casa, ponte, vila, etc. uma vez que elas só podem ser femininas. Palavras como criança, vítima e testemunha só podem ser escritas no feminino, mas são aplicáveis a seres do sexo masculino.

Ex.:
João Pedro é uma criança muito esperta.
Carlos é uma das vítimas do acidente.
Mário e Paulo são testemunhas valiosas para o caso.

Em nenhuma das frases acima se coloca em dúvida o sexo, muito menos a orientação sexual, dos sujeitos. Não cabe, então colocar o X – testemunhxs, vítimxs, criançx – já que são palavras tipicamente femininas.
Dentre outras ações que geraram bastante polêmica, o cartaz abaixo foi afixado na parede do Colégio Pedro II, colégio tradicional da cidade do Rio de Janeiro, contendo essa nova postura no tratamento de gênero, marcando com o X.
 
Fonte: Agência O Globo
 “Prezadxs alunxs, com o término das obras a sua entrada para as aulas de Educação Física e para o almoço será realizada pela rampa de acesso, ao lado do Ginásio e próximo ao refeitório escolar. Sendo assim, não haverá a permanência de alunxs nos corredores e acesso para as salas de aulas no período de 12:15 h, quando os portões serão fechados, até a sua abertura para a entrada dos alunxs do turno da tarde para aulas regulares e contra turnos.
Agradecemos a sua colaboração, Coordenação.”

O erro está no trecho “a entrada dos alunxs do turno da tarde”, seguindo a lógica da proposta, o correto seria “a entrada dxs alunxs do turno da tarde”, pois “alunxs” não deve remeter ao gênero masculino ou feminino, mas “dos” implica necessariamente no entendimento de masculino plural, como já explicado.

Vejam outros dois exemplos de uso incorreto:

“É negar aos trabalhadores o acesso a uma educação de qualidade para seus filhxs pequenxs” e “Xs funcionárixs da creche estão dispostos a receber as novas crianças”2

“O Movimento Passe Livre apoia a luta dos trabalhadorxs, e busca junto com todxs, construir um transporte de fato público e com um ambiente de trabalho justo! ”3

O erro da primeira está no trecho “qualidade para seus filhxs pequenxs”, o pronome possessivo tem duas formas, seu e sua. Diferentemente do artigo, o possessivo não concorda com o possuidor, ao contrário, concorda com o possuído. Se forem “filhos pequenos”, indica masculino plural, logo o possessivo tem que ir para o masculino plural seus; se forem “filhas pequenas”, o correto é o feminino plural suas. Alguém entende que em “negar aos trabalhadores” está se referindo apenas aos homens? Na outra frase o erro está em “a luta dos trabalhadorxs”, cai no mesmo caso do que eu disse sobre o trecho “a entrada dos alunxs”.
Até agora eu apresentei motivos linguísticos tradicionais para não se usar X, mas isso vale para o @, para o *, para qualquer sinal não previsto pela Tradição. Isso quer dizer que sou contra os movimentos de igualdade? Não! Quer dizer que não possa haver mudança nesse aspecto da língua? Não! Quer dizer que há outras formas de linguagem inclusiva? Sim!
Se o intuito é de mudança da língua, se temos que apagar toda e qualquer aparência de machismo e preconceito, se a língua é machista, ok... Serão necessárias reformas na sintaxe, na morfologia, na fonologia, no léxico e na semântica da língua. A língua só muda porque os falantes mudam. A Norma Padrão tem um propósito, gostemos ou não, Norma é algo que é normal; a linguagem inclusiva pode deixar de ser característica das “minorias” e fazer parte da “maioria”, mas isso demanda tempo e luta. Tal mudança será fácil, aceita por todos ou rápida? Acredito que não.
Espero não ter ofendido nem denegrido essa ou aquela pessoa. Não fique preso a uma só ideia, leia, ouça, reflita, fale.

Obrigado e até a próxima!



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