quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Coisa




- Que que você ta fazendo?
- To coisando uma coisa aqui.
- E como ta ficando?
- Todo coisado...

            Muito provavelmente vocês já viram ou fizeram parte de um discurso assim. “COISA” é tão plural que só há uma palavra para defini-la: Polissemia. Polissemia vem do grego “poli-” (muito, variado) e “sêma” (sinal, significação, ato, expressão), i.e, multiplicidade de significados em uma mesma palavra.
            Quando você está com aquele vazio na mente enquanto arruma o carro e te perguntam: “ta fazeno quê?” Sem sombra de dúvida a resposta será um “to coisando aqui”. Podemos por analogia ver que a raiz seria “cois-” com vogal temática “-a-” e o tema seria “coisa” mesmo. Pode-se usar em verbos, substantivos, adjetivos, mas em advérbios é encontrado com pouca ocorrência.

            Coisa como verbo:
            Coisar pertence à 1ª conjugação, como todos os verbos “inventados”, padrão regular e é utilizado quando a ação não está clara no entendimento do agente; sinônimo de mexer e fazer, tem característica de não ser compreendido de pronto pelo interlocutor, mas causa um desconforto tal que pode fazer com que a pessoa desista de perguntar novamente ou aumente ainda mais a curiosidade. No futuro do pretérito e no futuro do presente simples a ocorrência é menos natural e no mais-que-perfeito é quase inexistente (também quase ninguém usa o mais-que-perfeito mesmo...)
            Aplicação numa frase:
“Estou coisando o carro.”
“Ele coisou tudo aqui.”
“Vou coisar aquilo ali.”
“Aquele que, quando falava, coisava tudo?”

            Coisa como substantivo:
            Essa é a mais comum, ou uma das, por se aplicar a qualquer objeto independente do gênero. A coisa é tão comum que até mesmo seu professor na escola e faculdade usam para explicar algo que, ou não quer revelar ou não consegue ter certeza do significado. Gênero feminino e plural em “–s”, paroxítona e significado incerto, característica principal é poder assumir em si qualquer significação desejada, mas, assim como com a forma verbal, pode causar um desconforto que faz com que a pessoa desista de perguntar novamente ou aumente ainda mais a curiosidade.
            Aplicação numa frase:
“Me dá uma coisa pra apertar aqui!!!!” (eu sei, pronome átono não inicia frase... mas isso é língua falada, você não tem tempo e tem que pedir logo qualquer objeto para apertar... depois você pensa na norma culta padrão)
“Estou com alguma coisa no dente.”
“A coisa linda e maravilhosa que você comprou era isso?”

            Coisa como adjetivo:
            Assim como o verbo e o substantivo, ao tentar definir um objeto, mas se sabe as características do mesmo, a coisa pode ser coisada de várias maneiras. Ao contrário do que vimos anteriormente, essa aplicação não gera um desconforto que faz com que a pessoa desista de perguntar novamente ou aumente ainda mais a curiosidade, o interlocutor entende de imediato do que se trata e não refaz a pergunta por ter entendido o recado. A coisa como adjetivo é tão produtiva quanto como substantivo, por vezes aparece “coisado”.
            Aplicação numa frase:
“Aquela mulher é uma coisa...”
“Isso ficou uma coisa.”
“A casa está toda coisada.”
“Aquela coisa coisada ali.” (coisada está sendo empregada como adjetivo nesta frase)

            Coisa como advérbio:
            ...
            Eu pensei em algo naturalmente utilizável, mas as produções foram muito “forçadas”, muito sintéticas, muito coisadas... acho que como advérbio não se realiza com coisa...
            Aplicação numa frase:
“Ele saiu coisadamente da sala.” (eita... essa “doreu”)

“Saí coiso...” (OMG)

“Percorri acoisadamente...” (pensei que podia piorar... pelo visto...)

“Ele é tão coiso quanto ela...” (acho melhor parar...)

            Tudo isso serviu para mostrar como a polissemia está presente no nosso dia a dia e nem percebemos, quando o professor fala que “luz” adquire significado de “conta de luz”, “pão e brotinho” se refere a homem ou mulher bonito(a), ele está falando dessa coisa que você fica usando sem se dar conta. No Vestibular e no ENEM, ficar repetindo palavras é ruim e, por mais que possa parecer adequado ficar repetindo e repetindo as palavras, troque por sinônimos que realmente tenham a ver com o desejado. Última dica, por mais que pareça óbvio para você, para os outros uma palavra pode ter significado diferente e aí a coisa vai pra coisa...

Obrigado e boa leitura.

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